A TOMADA DA BASTILHA E A GUERRA DAS HORTAS

Na nossa peculiar cidade vive-se a expectativa de ver destruir o edifício da Penitenciária para aí desenvolver um projecto imobiliário. Alguns, para disfarçar e encobrir as suas responsabilidades, falam num corredor verde que mais não será que uma mais valia para os construtores do empreendimento que só falta não acabe num condomínio fechado.

Espantosamente, numa postura de absoluta fragilidade, a Câmara aceitou a venda a retalho daquele espaço pelo Ministério da Justiça, para que este obtivesse meios financeiros para a construção dum novo estabelecimento prisional no Botão, o que até já não é dado como certo.

É assim que, por falta de visão e de ambição, a cidade vai sendo destruída mesmo sabendo que ali poderia surgir um projecto charneira da Cidade com a Universidade e um objecto arquitectónico singular capaz de atrair as atenções gerais.

Mais, não sendo Coimbra uma capital política bem poderia, sem receios de ninguém, fazer emergir ali um centro dedicado à Lusofonia, cumprindo-se naquele espaço uma ambição cultural de projecção de Coimbra, dirigida a todos os que amam e cultivam a língua portuguesa, porventura, o nossa grande mais valia no contexto actual da globalização.

Mas não, em Coimbra discutem-se acusações entre vereadores, com associações de moradores pelo meio, utilizadas como arma de arremesso, em que não faltam hortas municipais capazes de produzirem belos repolhos.

Resta-nos assim lutarmos pela tomada da nossa Bastilha. Isto é, batermo-nos pela não transformação do espaço da actual Penitenciária num projecto de especulação imobiliária, lutando pela sua entrega à cidade sem reservas nem condicionantes. Conseguir isso seria como conseguir a queda do Ancien Régime, porque seria o fim duma política opaca e sem capacidade de defesa dos interesses da cidade e a emergência duma nova forma de governação autárquica.

Quanto aos interessantes debates travados entre vereadores na defesa das suas hortas políticas fica um sempre saboroso poema de Bocage

Epígrama

Levando um velho avarento

Uma pedrada num olho,

Pôs-se-lhe no mesmo instante

Tamanho como um repolho.


Certo doutro, não das dúzias

Mas sim médico perfeito,

Dez moedas lhe pedia

Para o livrar do defeito.


“Dez moedas! (diz o avaro):

Meu sangue não desperdiço:

Dez moedas por um olho!

O outro dou eu por isso.”

João Silva

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