Coimbra tem mais encantos… olhada de fora

Agosto de 2007, procurávamos apartamento para arrendar em Coimbra. Como de hábito, olhámos vários entre os quais um perto da Sé Velha. Apartamento antigo, um pouco escuro, com alguma mobília antigo. A minha esposa, brasileira, comenta: “deve ter sido o apartamento do Bentinho”…

Bentinho é o personagem do romance de Machado de Assis, Dom Casmurro que estudara leis em Coimbra e Pádua, casa com Capitú e acha que ela o trai com o melhor amigo… bem mas não é para resumir o romance que estou aqui.

Dom Casmurro é o romance mais conhecido no Brasil, Capitú e Bentinho são os personagens ficcionais mais conhecidos pela população e Coimbra faz parte dessa ficção. Ao imaginar-se Bentinho em Coimbra, deveria ter sido num apartamento parecido com aquele.

Coimbra faz parte de um universo referencial simbólico do brasileiro. Claro que não falo aqui de toda a população. É muita e a maioria, porventura, nem nunca ouviu falar de Coimbra. Mas para aqueles que conhecem e, mesmo assim não são poucos, Coimbra figura como baluarte da cultura lusófona. Há todo um encanto e, diria, um certo glamour intelectual quando se fala de Coimbra no Brasil. Há uma reverência que remete àquela placa na A1: “Cidade do conhecimento”. Que o digam aqueles que já tiveram algum tipo de contacto com académicos e intelectuais brasileiros. Isso para não falar da Académica de Coimbra, único clube no mundo a ter um equipamento principal, todo preto (mas esta parte é só para os muito aficionados).

Sim, Coimbra é, de alguma forma, idolatrada no Brasil. Eu, que nasci aqui perto, sou do distrito, sempre a vi como uma cidade cheia de vida na qual os estudantes formavam um mundo desejável, envolto num clima de pensamentos mais altos, mais rebeldes, mais subversivos. É um pouco essa referência que Coimbra possui entre os brasileiros.

Provavelmente desiludem-se quando vêm viver para cá. A cidade perdeu-se nos labirintos do saber, prendeu-se à história e à tradição não reatualizadas. Achou que ser a Cidade do Conhecimento primeiro e a Capital da Saúde depois, ou vice-versa, não sei, lhe bastaria e, assim, sentou-se à margem do Mondego a dedilhar as cordas da guitarra enquanto as águas passavam… e continuam passando.

Parece que nada se faz por aqui. É cada vez mais uma arquitetura medieval a dominar as acções dos seus cidadãos. O poder no alto, à volta da torre da Universidade e, fora das muralhas do castelo (baixa) o povo. De vez em quando, passamos para os olhar e achamos pitoresca, excêntrica e até bonita aquela vida agitada das estreitas ruas durante o dia. Á noite colocamos câmaras para vigiar os infractores. Salazar teria gostado dessa ideia nos tempos dele…

 

Joaquim Duarte

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