Coimbra vista do Porto.

1.      Coimbra é um episódio da paisagem entre o Porto e Lisboa. Quando voltamos do sul, é o primeiro sinal de que estamos perto de casa; se estamos ainda a caminho do sul, é o primeiro sinal de que estamos a abandonar o norte. Não vou em modas: isto de região centro não é nada. Em Coimbra começa e acaba o norte. Se fosse centro não seria apenas uma placa “Capital do Conhecimento” na auto-estrada do norte ou uma estação de comboio com tiques de apeadeiro.

2.      Não me lembro em que momento é que Coimbra se transformou em paisagem, numa gravura animada que se admira de passagem. Mas recordo-me que já houve um tempo em que as pessoas não só passavam, não só paravam, como também faziam de Coimbra um destino. Na minha infância, em Aveiro, Coimbra era a cidade da última oportunidade. Dizer “Foi para Coimbra” era o suficiente para encher de gravidade os rostos. Era o equivalente a uma quase sentença de morte: Coimbra era a última chance para vítimas de aparatosos acidentes ou de doenças letais, uma descida aos infernos. Regressar de Coimbra era como voltar do mundo dos mortos, uma verdadeira odisseia destinada a ser contada e recontada vezes sem conta. Esta foi a minha primeira Coimbra.

3.      Andava ainda no liceu e já o canto da sereia me incomodava. Os colegas mais velhos que tinham ingressado na Universidade cantavam-me loas e odes aos encantos da cidade. Eram os tempos do Café Moçambique, dos  M’As Foice, das tardes épicas passadas nas mesas dos cafés a discutir Marx, Monty Python e as misérias do mundo em geral. Aquilo parecia encher-me as medidas, mas acabei por optar pelo Porto. Numa tentativa de obter o melhor dos dois mundos, ainda cheguei a pedir transferência para Coimbra no meu segundo ano e por aqui passei um mês num torpor bovino. A cidade já não era a mesma, isto é, era a mesma mas em pior. Nada se fazia para além de se passar tardes a reciclar conversas e a beber cerveja. Felizmente a vetusta academia libertou-me deste fardo ao descobrir uma insanável irregularidade burocrática no meu processo de transferência. Voltei para o Porto. Foi esta a minha segunda Coimbra.

4.      Terceira Coimbra, propriamente dita, não houve. Só em situações muito excepcionais é que me dava ao trabalho de aqui regressar. Os Encontros de Fotografia (de longe, o acontecimento cultural mais importante que esta cidade alguma vez teve) era um dos eventos que me obrigava a vir passar uns dias à Lusa Atenas, ocasião que servia para verificar que tudo tinha ficado como eu havia deixado. Os congressos e colóquios também me obrigavam a pernoitar em Coimbra. Mas tenho a nítida impressão de que a oferta já foi bem melhor. Desde de Coimbra Capital Nacional da Cultura que não ponho os pés por cá. Depois sobram algumas exposições no CAV para justificarem uma paragem. Hoje consigo vir a Coimbra todas as semanas sem realmente entrar na cidade: Coimbra-B, Táxi e FEUC, FEUC, Táxi e Coimbra-B (os taxistas – prestáveis como sempre – encarregam-se de ir variando os percursos). Há muito que Coimbra é apenas uma cantiga. Sempre a mesma cantiga.

David Afonso

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One response to “Coimbra vista do Porto.

  1. Imagino que a tua vida deve ser uma aventura!

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