Para uma Coimbra não sentimental

Pequeno excerto de A Noite em Arquitectura, obra da autoria do Arquitecto Jorge Figueira

O problema de Coimbra é, como se sabe, o do sentimentalismo.

O sentimentalismo afecta a cultura e o quotidiano coimbrãos, carregando os lugares-comuns de uma circular vitalidade, mesmo quando a poética da cidade, a haver alguma, já há muito se deslocou das margens do Mondego. O sentimentalismo exalta o sortilégio de Coimbra, criando uma retórica paralisante, anti-pragmática. Afogando os sentidos em mágoas, o sentimentalismo só produz reticências e pontos de exclamação. Transformar o sentimento – coisa interior em fachada de capa e batina, tende inevitavelmente para a caricatura.

Nuno Rosmaninho introduz este tema no capítulo «Os estereótipos de Coimbra» da sua Dissertação de Doutoramento. Cita Alberto de Oliveira que escreve sobre o culto de Coimbra, em 1934: «o tema que fascinou todos os nossos poetas, desde que Portugal existe, está talvez relegado pela geração novíssima à categoria de lugar-comum, lamecha e piegas por excelência, indigno portanto de ocupar ou comover mentalidades e sensibilidades mais evoluídas que as nossas». Para apreciar Coimbra, escreve ainda Alberto de Oliveira, «não é preciso ter alma romântica, e é até preferível não a ter». São os estereótipos que se abatem sobre Coimbra, e que a cidade cultiva como património florescente, que permitem o desdém de Lisboa, e a crescente indiferença do país.

O sentimentalismo, que se veste de uma episódica boémia, e se experimenta ritualista na praxe, prolonga a agonia de Coimbra. Quando outras cidades universitárias copiam estes maneirismos, é de uma espécie de franchising que se trata. Coimbra serve de matriz para o folclore que universidades mais recentes querem avidamente integrar.

Daniel Tiago

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One response to “Para uma Coimbra não sentimental

  1. Isto fala me muito !

    Não sei se é uma problema da sentimentalidade en se. Mas parece me que a cidade é um lugar de estudentes que vivem demais fora dos outros estilos de vida. Fonciona como um tempo de margem entre à infança e a vida laboral. Este tempo de margem é muito normal é sempre um característico dos jovens. Mas quanto na outra cidades, este vida dos jovems funciona junta aos vida dos outro pessoas, aqui em Coimbra, os jovens têm uma força muita alta. Entâo as outras forma de vida desaparecer du lugar da cidade.
    Deve mudar isto ?
    Pode mudar isto ?
    Não sei
    A mesmo tempo essa situação parece dar mais força aos pensamentos alternativos e mais fraqueza para sentir se essas alternativas são crediveis.
    De um outro lado, essa situação parece me crear a necessidade de tomar pistas por dentro o mundo dos jovens porque não tem pistas suficiente no mundo laboral ou dos adultos. Esto pode explicar ou poder das “quemas das fitas” porque quando as pessoas mudam, eles só precisam de marcos estáveis no seu ambiente. Se o mundo dos adultos que vivem não é capaz de obter, o mundo da tradição continua a ser uma possível solução.

    Ao fim, parece-me que Coimbra falta de produção da indústria, que não são industrias de produção dos licenciados

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