INTOLERÂNCIA

Alguns confrontos verbais do passado fim-de-semana, e não só, fizeram-me lembrar Teixeira de Pascoaes e o capítulo X da sua “Arte de Ser Português”, onde fala dos defeitos da alma pátria, entre outros, da intolerância que passo a transcrever, com uma dedicatória, perdoem-me os leitores deste blog, a alguns dos meus camaradas que de Porto a Coimbra vão até Lisboa:

 

            “Intolerância

           

Este defeito é uma forma da vaidade susceptível que se alimenta da sua quimera dolorosa. Quem dúvida do próprio valor não pode suportar a dúvida alheia que lhe diz, em voz alta e clara, o que ele mal se atreve a murmurar.

           

Mas a intolerância tem outra origem mais positiva; é ainda um processo de defendermos os nossos interesses.

           

Se é uma utilidade para mim a seita (política, religiosa, etc.) a que eu pertenço, os princípios que esta segue, compete-me torná-los dogmáticos, absolutos, indiscutíveis. Sim… porque discutir uma ideia é pô-la em conflito com a verdade.

           

O Deus dos padres e a Liberdade dos políticos, para eles são coisas indiscutíveis – quero dizer, essenciais à existência das suas igrejas sagradas e profana.

           

Uns prometem a Liberdade, os outros prometem Deus; e, suspensa de tal promessa, conseguem ter obediente aos seus desígnios a eterna criança, ludibriada – o Povo.

           

A intolerância defende os interesses de uma seita e imprime à criatura o mais odioso fácies!

           

É a alma negra da anarquia.”

 

João Silva

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