Esboço de um conto.

A Ilha Abril

 

Abril é uma Ilha de origem vulcânica que esteve quarenta e oito milhões de anos em erupção a queimar os ténues resquícios verdes de outra ilha chamada Outubro, extinta vai para 90 milhões de anos. Esta ilha sempre conservou alguma vida ainda que limitada, seres praticamente vegetais, embora alguns, poucos, muito poucos, com uma casca mais sensível, perdessem o tom pálido com os infravermelhos mais intensos, por entre o fumo da massa cinzenta queimada perenemente. Este número reduzido de seres em germinação, ansiavam freneticamente pelo fim da queima, para sentir o impacto da diversidade colorida dos raios, receber o seu afável calor. A maioria dos seres, apenas queria que o vulcão acalmasse, pois estavam fartos de erupções que dilaceravam seus rebentos, por vezes em terras distantes, levados contra a vontade por ventos fortes, provocados por explosões intensas. A caldeira conjugava uma solução química de força brutal e incontrolavelmente esmagadora. Apesar de tudo, estas sementes de sensibilidade menos educada tinham medo da força da luz solar, era uma ignorância hereditária que aos poucos se tornava genética.

A intensidade da queima foi tanta, durante tanto tempo, que já nada havia para queimar.

A latitude da ilha parecia ser constantemente 89º Norte, mas a primavera afirmava-se com mais força que o habitual.

Já anteriormente, há 5 milhões de anos, a áurea boreal tinha pairado no ar de forma intensa, mas a queima logo se intensificou, os sons do metal trucidante ecoaram nas portas do maciço marginal. Um rio de nome Mondego fervia e, incapaz de apagar tal incandescência, rapidamente se pintou de vermelho hematite sangue. A chaminé vulcânica cresceu mais um pouco.

A luz não se via, mas desta vez o calor chegava. Meia dúzia de sementes começaram a inchar e sua radícula espreitava curiosa pela mudança da forma. Estas começaram a mover-se. Inesperadamente, rebolaram cone vulcânico abaixo, empurrando centenas de outras sementes que rebolaram de forma organizada e compulsiva para a mesma ponta da ilha, fazendo com que a ilha se inclinasse e uma onda invasora se agigantasse. Esta Onda, vinda de banhar outras paragens, quase como que empurrada, apagou a lava. A descida abrupta da temperatura fez com que as nuvens negras transformassem o fumo em água doce. Choveu torrencialmente durante uma longa madrugada, um temporal premonitório da boa nova sempre com alguma cinza à mistura, o granizo igualmente destruidor não veio. Os campos encheram-se de vida, aquelas as sementes brotaram imprevistamente, cravos vermelhos dos mais belos e alguma vez vistos. O primeiro herói nasceu precisamente no sítio mais inesperado, no topo da chaminé, embutido no velho e já frágil mas ensanguentado cone abatido, calejado pelos piroclásticos constantemente arremessados.

A alegria encheu os campos e os cravos foram tomando outras cores azuis, laranjas, amarelos, roxos, verdes, cor-de-rosa. Um lindo campo em que os cravos tentavam povoar a ilha à sua maneira. Mas as cinzas que caíram de madrugada eram portadoras de um estranho vírus. Os cravos expostos a estas, tinham uma tendência quase que natural para que as suas raízes crescessem mais que as outras. Aos poucos, consumiam todas reservas de nutrientes e água disponíveis. Os cravos não contaminados trabalhavam arduamente, mas sem compreender porquê, o alimento era sempre curto para as suas necessidades biológicas. Quando chegamos ao Outono os cravos oportunistas largam folhas e flores velhas, que o vento levava aparentemente para estrumar o quintal vizinho, mas a realidade não passava apenas de aparência. As raízes mais extensas chegavam primeiro com uma osmose alarva, decapitando os solos mais ricos e os indivíduos mais trabalhadores. Estes fisicamente não se diferenciavam dos outros, apenas alguns engordavam demais, ou reluziam da transpiração provocada pela gula. Nesta labuta, aparentemente a ilha vive viçosa, no entanto as plantas contaminadas vão comendo até ao último grão de húmus. A ilha vai prendendo a sua carapaça colorida e protectora, voltando a aquecer a lava espreita por entre o esqueleto. Porém, alguns cravos tentam a todo o custo eliminar as raízes dos cravos contaminados, mas apenas se conseguiram enxertias. Os cravos vermelhos são sempre os mais laboriosos, embora muitos outros de cor vermelha padeçam da mesma doença da gula.

Nesta lufa-lufa, a ilha Abril joga assim seu lugar a sol. A latitude dos 40º é sempre periclitante, os diferentes organismos imunológicos gerados pelos cravos, que lutam pela sobrevivência colectiva da ilha, ainda não provaram eficácia na garantia que cada indivíduo será recompensado pelo seu esforço ou penalizado pela falta dele! Apenas se cortaram folhas e flores, mas o problema está na osmose, na raiz. Esta tarefa é árdua e sagaz, mais intensa do que mudar o código genético.

Uma ideia surge, já a primavera brotava intensamente, os cravos que travavam esta luta pela justiça decidiram enviar em simultâneo o seu cheiro com um pedido de ajuda escrito, ao soprar uma brisa mais forte. O vento suão deslizava por entre montes e vales, já não calava a desgraça, trazia bem expresso no seu caudal sólido o cinzento da massa queimada, lá para as bandas do equador! Nem sequer um cheirinho a cravos, pois a queima durava á muitas centenas de milhares de anos. Certa madrugada o sol viu-se na penumbra, mas logo desapareceu num ápice, nem sequer deu tempo para a radícula espreitar. Já em pranto gélido do orvalho corria por entre pétalas que nem o vento sub-tropical secava. Subitamente a temperatura baixa, a nortada começa a soprar suavemente, e trás um perfume a tulipas e muitas outras flores, parece que por lá a diversidade é maior, a olhar o pólen que chega! Esse pólen trazia uma resposta ao pedido de ajuda.

– Ainda não tinham ganho essa batalha, mas já não impedia ninguém de comer. O antiduto tinha sido uma intituição que tinham inventado já á muitos milhares de anos a escola.

A escola também os cravos tinham, já de á muito e nada tinha resolvido! Mais uma brisa, esta ainda mais forte, e nova mensagem. A nossa escola ensina a ganhar o pão com ética perante o vizinho e o jardim, só assim conseguimos ter os jardins mais belos de sempre, em que cada elemento contribui com a toda força e para essa beleza. Este sabe que as suas flores e pétalas, contribuíram para fertilizar o seu e o quintal dos outros sem que os outros suguem o seu sustento pela raiz!

Todos cravos cheiraram aquele perfume. Alguns perceberam o quanto difícil é mudar esta instituição que apenas pensa em produzir mais flores e folhas, para comer mais. Perceberam também que não vale a pena ensinar só a produzir, apreender a distribuir com verdade é igualmente importante!

È nesta discussão que a ilha Abril se aguenta à tona, porque o mar que a rodeia está calmo, mas a qualquer momento as nuvens negras podem rasgar o céu e o mar revoltar-se, a ilha pode afundar-se sobre a lava que percorre sub-repticiamente o seu interior. Infelizmente, só aí os cravos testaram a gravidade da doença de Abril.

A beleza desta ilha anda com os seus passos trémulos, o futuro de Abril depende de todos os elementos deste corpo tão complexo como repleto de singularidade. Poucos sabemos que esta estória nunca estará acabada. Espero que os próximos relatos sejam de melhor saúde, em que o perigo de afundamento esteja mais longe do horizonte.

 

Hugo Duarte

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