Carta de Apresentação

Tenho mais de oito séculos de existência e como todas as cidades tenho tido momentos de sol radioso e outros mais tristonhos. Assisti ao nascimento do Reino de Portugal, fui mesmo sua capital. Fui percorrida pela História e dei-lhe o meu contributo. A Universidade faz parte do meu currículo e a ela devo muito do meu prestígio. Por mim passaram ilustres das artes, das letras, da cultura e da política. Aliás, vieram aqui aprender e quase sempre partiram com saudade porque o Mondego que me atravessa é manso e o povo que me habita pacífico e acolhedor. Sofri na pele invasões e destruição e mexeram-me muitas vezes nas entranhas porque me queriam diferente, mas nunca conseguiram tocar-me no espírito, nem na alma. Mas, esqueçamos a história e as estórias. O que interessa é o que sou hoje. No final da primeira década deste século, mais concretamente em finais de 2009, vivi mais um daqueles momentos de esperança, porque havia eleições e eu sonhava com uma mudança radical dos que me governavam. Felizmente tive sorte. As coisas mudaram muito a partir daí. De repente surgiram novos políticos, que não só diziam que gostavam de mim mas que depois o confirmaram. Eram não só políticos novos mas também tinham novas ideias e novos comportamentos. Percebi que me perceberam. Tinham sonhos, ambição e apostavam na política com ética e com valores. Mostraram-se firmes na minha defesa e passaram a ser credíveis e respeitados. Com uma governação moderna e democrática foram mobilizadores dos que me habitavam e de repente tudo se começou a alterar. Primeiro que tudo tiveram a coragem de assumir com frontalidade que eu era uma capital regional – a Capital da Região Centro. Foram à luta, sem medo nem peias partidárias, bateram-se com vigor no referendo à regionalização e ganharam. Aliás eu ganhei. Mais, perceberam que eu era uma Cidade Universitária e que havia que estabelecer uma parceria estratégica entre a Câmara, a Universidade e todas as instituições de ensino superior. A partir daí toda a actuação destas diversas instituições passou a ser articulada e foram notórios os ganhos de todas e, mais uma, vez eu ganhei. De seguida não desistiram de encontrar um modelo de desenvolvimento económico consequente, assente na inovação e na criatividade. Fizeram uma aposta no apoio à criação de serviços de excelência, estabeleceram canais entre a investigação universitária e a área industrial, garantindo um bom rácio entre I&D e aplicação industrial e sobretudo assumiram-me como a Cidade da Saúde, desenvolvendo uma estratégia de marketing que me trouxe enormes proveitos e que tornou impossível falar de saúde e das ciências da vida sem falar de mim. Consideraram, contudo, que nada seria possível sem estabelecer criteriosos métodos de intervenção pública que garantissem padrões de qualidade de vida, apostando decisivamente na Cultura. A actividade cultural tornou-se o fio que tem vindo a cerzir a minha vida e a estabelecer pontes com a Região, garantindo um Centro forte e actuante na vida cultural do país e levando ao desejo de viver aqui. Depois foram inteligentes. Viram que eu precisava de um choque que quebrasse a monotonia e que pela controvérsia e novidade me colocasse no centro das atenções. Pensaram na Baixa e na Alta e iniciaram um duro combate no sentido de conseguirem duas intervenções marcantes. Denunciaram um protocolo que havia com o Governo sobre as instalações da antiga Penitenciária. Ganharam essa guerra e hoje, como se pode ver, está ali em desenvolvimento uma Casa da Lusofonia, onde se está a instalar, com as últimas tecnologias a Biblioteca Geral da Universidade, uma Delegação da CPLP, uma Delegação do Instituo Camões e um Centro Lusófono de Cultura projecto que congrega os países de língua oficial portuguesa que, graças ao prestigio cultural e cientifico de Coimbra e à ausência de ambições de controlo político, facilmente mereceu a sua adesão. Simultaneamente “atiraram-se” à Baixa e contra ventos e marés decidiram construir um objecto arquitectónico singular e simbólico no Terreiro da Erva – uma torre fantástica – destinada em parte a instalar a Câmara e ainda um Centro de Desenvolvimento e Controlo de Sustentabilidade Ambiental, altamente inovador capaz de garantir Coimbra como uma cidade paradigmática a nível de políticas ambientais urbanas. Complementarmente, o edifício da Câmara foi transformado num Centro de Cultura que dinamizou a vida na Baixa, fazendo reviver o comércio, reduzindo a insegurança e impondo a Baixa como um espaço de referência na vida da cidade. Por tudo isto, de que muito resumidamente dou nota, e que se sustentou numa visão global de uma cidade mais solidária e mais fraterna, deixei de ser vazia e periférica e tornei-me a cidade viva e apetecida, respeitada e até temida. Esta sou eu, Coimbra, em 25 de Maio de 2015.

Escrito por João Silva

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2 responses to “Carta de Apresentação

  1. muito bem joãozinho

  2. Fico francamente contente por ver este blogue a falar da feira dos 23 em Coimbra local onde vendi alguns anos e me deixa saudades.

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