AMOR EM TEMPO DE ELEIÇÕES

Tenho hesitado sobre a escrita nos próximos tempos. Não quero correr o risco de ser mal interpretado e acusado de contribuir para a vitória ou derrota de alguém, ou vice-versa.

Não resisti, contudo, a algumas letras antes das férias, espicaçado, sobretudo, pelo ambiente de amor que se vive, melhor, as grandes paixões que andam no ar neste tempo pré-eleitoral.

Os primeiros outdoors autárquicos são uma mensagem de amor, um amor pueril de dedos entrelaçados ou uma fotografia do noivo espetada no chão da amada, a apregoar-lhe um amor seráfico de romantismo babado.

Não há dúvida que o amor anda no ar e só faltam os sussurros poéticos que virão a seguir, fazendo crer que não iremos ter debates políticos mas sim jogos florais a enaltecer as virtudes da amada e o sofrimento que ela vive há trinta, mais oito anos.

Aliás os últimos oito anos, é bom que sejam separados, porque foram tempos de incompreendida paixão. O apaixonado, neste período, preocupou-se mais em olhar-se ao espelho, em cultivar a sua imagem e em promover os supporters do seu poder. A pobre apaixonada foi esquecida e relegada para um esconso limbo, onde às vezes era instrumentalmente revisitada.

Depois há o amor pelos independentes que emerge com violência nestas alturas. Durante anos são perigosas criaturas mas de repente, em tempos de eleições, passam a ser os melhores, seres superiores, como que provando que os partidos não passam de árvores secas sem frutos capazes para os necessários combates políticos.

Diz-se, mesmo, perante a escolha desses independentes, que só se escolhem porque são os melhores, dignos, como tal, de acrisolada paixão e demonstração de que quem quer ter sucesso político não se deve filiar em partidos.

Também nesta altura surgem os pregadores da paz e do amor que, vivendo anos de silêncio e de sábia sementeira da cizânia, aparecem como verdadeiros juízes de paz a apregoar o amor e a distribuir bênçãos aos que silenciosamente digam que sim.

Este é um tempo verdadeiramente mágico, que opera maravilhosas transformações e que até leva, por razões de amor e paixão, ao evangélico disfarce de grandes amorosos que se metamorfoseiam em inimigos, num jogo de superior hipocrisia política. Eles apoiaram-se nas horas difíceis, deliciaram-se em suaves momentos de ternura, nadaram nas mesmas águas, fizeram ternurentas declarações de amor e agora é vê-los representarem, com voz grossa e sobrolho franzido, ódios fingidos. Até, surpresa das surpresas, surgem generosos políticos mendicantes que se esfalfam junto do povo, da arraia-miúda, sacrificando fins-de-semana e orgulhos aristocráticos, para pedir o apoio necessário ao castigo do mau que era bom e que, depois de amoroso companheiro, se tornou, num dia de triste memória, em odiado inimigo porque lhe recusou o ambicionado óbolo político.

Meus caros amigos é tempo de férias. Por favor plantem-se na areia, ou debaixo de uma árvore, e leiam Tolstói ou Ian McEwan. Escolhas bem diferentes, é verdade, mas leituras enriquecedoras. Ficam duas sugestões: Guerra e Paz ou O Fardo do Amor e verão como ficam melhor preparados para entender as paixões avassaladoras que por aí pululam. Já gora, não esqueçam de arranjar um álbum de recordações para mais tarde recordar. Boas férias.

Coimbra, 21 de Julho de 2009 João Silva

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