Não sabemos lidar com o risco

            A sexta-feira dia 21 de Agosto de 2009, colocou a nu todas as fragilidades do país no que diz respeito à previsão e medidas de minoração de catástrofes e acidentes naturais.
Os primeiros a falhar foram os cidadãos. As arribas da praia Maria Luísa em Albufeira são instáveis, mas não é preciso nenhum técnico para reconhecer o perigo, basta somente estar atento. Por outro lado, não compreendo a definição do INAG, a diferença entre perigo e perigo eminente. O perigo implica sempre imprecisão na ocorrência, se tal não acontecer, não é perigo ou risco.

            A sinalética apesar de ser reduzida era suficiente, tendo em conta que o perigo estava ali bem à frente dos olhos com dezenas de metros de altura. No entanto as vedações, a vigilância do nadador e polícia marítima poderiam ter um papel vital na prevenção destes acidentes.
Assim que deu o desabamento, tudo continuou a correr mal. A praia não foi evacuada, não houve um responsável que de imediato começou a transmitir algo aos órgãos de comunicação social permitindo especulações.

            Os topos das falésias da enseada encheram-se de observadores, se de facto as falésias estavam instáveis devido aos fenómenos já explicados, um sismo nas 48 horas anteriores e as marés vivas, a pressão no topo das colinas poderiam provocar novos desmoronamentos.
Os bombeiros e outros agentes da protecção civil, correram perigo de vida desnecessariamente Estes escavaram toda a tarde mesmo ao lado da falésia parcialmente desmoronada, enquanto a maré subia factor que poderia continuar o processo de instabilização, quando já não poderiam salvar qualquer vida.

            Este ano fui de férias para a Nazaré, onde vi coisas impressionantes. Pessoas a recolher argila mesmo no sopé da conhecida falésia do sitio, apesar da sinalética e a zona vedada com fitas. O acto de tirar argila da base da vertente só por si é instabilizador desta vertente já instável, com um historial de desabamentos e deslizamentos impressionante. No topo da vertente, no sítio os turistas vislumbravam descansadamente a magnífica planta da Nazaré, ignorando as placas de alerta para o perigo. Enquanto tudo isto acontecia, a polícia marítima recolhia algumas bolas dos jovens que se divertiam jogando vólei perto do mar, mas dentro da zona concessionada às famosas barracas às riscas.

            À noite a polícia aparecia no meio da avenida principal, cheia de gente transmitindo a sensação de segurança. A segurança dos cidadãos depende de imensos factores, muitos mais que a sempre apetecível e fácil criminalidade em que toda a gente pensa.
Na mesma tarde, Fernando Seara fugia às suas responsabilidades, atirando as culpas para a mão criminosa sobre um incêndio. Os dados dizem que a esmagadora maioria dos incêndios decorre de negligência das populações locais ou transeuntes, a limpeza das matas é um factor de diminuição dos impactos do fogo.

                O senhor presidente da câmara obviamente não cumpriu a sua função de limpeza da floresta e manutenção dos aceiros limpos, só assim se compreende que mais de 500 bombeiros com 135 viaturas tenham levado um dia a apagar este incêndio mesmo às portas de Cintra.
O país precisa estar mais atento à organização da sua protecção civil. Nunca se esqueça, o primeiro agente responsável é você, primeiro cumpra a sua parte, depois exija com toda veemência a eficácia às autoridades responsáveis.

            É pena que haja tantos geógrafos desempregados, os únicos especialistas capazes de articular e coordenar todos os pontos desta área de saber e de acção. Não falo em causa própria uma vez que me dediquei ao ensino, embora nunca esqueça o alerta para esta problemática dos riscos naturais. O sucesso da minoração do risco depende todos.

Hugo Duarte                                                                                   

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